terça-feira, 1 de abril de 2008

A ESCOLA DA VIDA

Nos dias de hoje, parece que ninguém tem dúvidas que a escola privilegia as competências aos conhecimentos. Já ninguém anda na escola unicamente para saber, mas sobretudo para saber ser, saber estar e, sobretudo, saber fazer. Também é consensual que, para além do currículo explícito, as aprendizagens se realizam noutros contextos, ganhando maior alcance o currículo informal e o currículo oculto. A escola já não é o único paradigma da educação e da formação. Aprende-se, como é óbvio, na escola, mas também se aprende no contexto familiar, no profissional, no associativo e aprende-se também com os media. As verdadeiras aprendizagens e, porventura, as mais significativas, de cada um de nós, licenciados ou não, aconteceram fora da escola.

Sendo assim, muito me espanta, que certos sectores da sociedade portuguesa, reajam ironicamente ao Programa Novas Oportunidades. Assiste-se já a alguma chacota pública e até a um certo anedotário nacional. Mas quem assim ridiculariza, conhecerá os princípios deste programa? Saberão que a maior parte destes adultos se formou na escola da vida, através dos currículos informais e ocultos? Saberão que muitos deles adquiriram as competências de linguagem e de comunicação à custa de muitas leituras? Que, mesmo que não dominem a linguagem académica, aplicam e lidam diariamente com a Matemática da vida, interpretando e aplicando métodos práticos e resolvendo problemas? Saberão que todos dominam a informática, na óptica do utilizador, utilizando o Word, PowerPoint, Excel e Internet? Quantos dos nossos alunos do 9º ano dominam estas ferramentas? Quantos são aqueles que têm uma experiência associativa e cívica tão rica como grande parte destes adultos? Muitos deles participam em movimentos associativos e cívicos, são autarcas, dirigentes associativos e encarregados de educação que acompanham de perto os seus filhos e que colaboram com a escola. Quantos são capazes de organizar um currículo, um portfólio, ou um dossiê exaustivo com as suas histórias de vida, salientando as diversas evidências pessoais, profissionais e formativas? Muitos deles têm uma experiência profissional rica e diversificada, revelando grande capacidade de aprendizagem e de adaptabilidade às diferentes profissões. Quantos deles, depois de oito horas de trabalho diário, ainda conseguem ter disponibilidade física e mental para frequentarem inúmeras acções de formação? E, sobretudo têm a humildade que, falta a tantos, para confessarem as suas limitações e têm um desejo férreo de se valorizarem cada vez mais. Não regressaram à escola, como se vai dizendo, mas têm que ultrapassar, por vezes, a crítica, o preconceito e a hostilidade de amigos e até de familiares, só porque aceitaram o desafio desta nova oportunidade e acreditam na aprendizagem ao longo da vida.
Enquanto avaliador externo, tenho tido a oportunidade de admirar, de me emocionar e de aprender com tantos destes homens e mulheres, que evidenciam tantas competências de vida, que apostam na leitura, que resolvem tantos problemas matemáticos, chegando mesmo a inventar equipamentos e máquinas, que sabem tanto de novas tecnologias, incluindo a informática, que frequentam tantas acções de formação, que detêm um riquíssimo currículo profissional, que participam de uma forma tão empenhada nos movimentos associativos e cívicos, quer como autarcas, dirigentes, voluntários, catequistas, escuteiros…
A todos estes homens e mulheres presto a minha homenagem e admiração.

Júlio Sá
Avaliador Externo

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